{"id":4195,"date":"2023-06-28T16:18:14","date_gmt":"2023-06-28T16:18:14","guid":{"rendered":"https:\/\/veredas.xoc.uam.mx\/?p=4195"},"modified":"2025-08-10T14:07:25","modified_gmt":"2025-08-10T14:07:25","slug":"mulheres-e-mineracao-o-cenariodas-violencias-e-das-lutas-na-regiaodo-quadrilatero-ferrifero-de-minas-gerais-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/veredas.xoc.uam.mx\/index.php\/2023\/06\/28\/mulheres-e-mineracao-o-cenariodas-violencias-e-das-lutas-na-regiaodo-quadrilatero-ferrifero-de-minas-gerais-brasil\/","title":{"rendered":"Mulheres e minera\u00e7\u00e3o: o cen\u00e1riodas viol\u00eancias e das lutas na regi\u00e3odo quadril\u00e1tero ferr\u00edfero de Minas Gerais-Brasil"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>Kathiu\u00e7a Bertollo \/ Mestre e Doutora em Servi\u00e7o Social pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Professora do Departamento de Servi\u00e7o Social da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP).<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><em>Este texto explicita o cen\u00e1rio das viol\u00eancias e das lutas travadas pelas mulheres contra a minera\u00e7\u00e3o extrativista na regi\u00e3o do quadril\u00e1tero ferr\u00edfero de Minas Gerais \u2013 Brasil, territ\u00f3rio em que uma forte e potente atua\u00e7\u00e3o das mulheres ocorre historicamente. O objetivo desta reflex\u00e3o \u00e9 explicitar o contexto da luta de classes e como sua faceta violenta incide sobre as mulheres que possuem alguma rela\u00e7\u00e3o com a minera\u00e7\u00e3o extrativista, seja como atingidas diretas, trabalhadoras desta atividade produtiva ou como parte de comunidades localizadas no entorno dos complexos produtivos e minas. Para tanto, o m\u00e9todo assumido \u00e9 o materialismo hist\u00f3rico-dial\u00e9tico e o percurso metodol\u00f3gico acontece a partir de pesquisa bibliogr\u00e1fica e documental organizada em dois \u00e2mbitos de reflex\u00e3o: uma breve contextualiza\u00e7\u00e3o da minera\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o l\u00f3cus do estudo a partir da condi\u00e7\u00e3o de capitalismo dependente que se imp\u00f5e e que a estrutura; em seguida, um retrato da realidade a partir de depoimentos e descri\u00e7\u00e3o de fatos que comprovam tal cen\u00e1rio. A constata\u00e7\u00e3o \u00e9 de que a viol\u00eancia sobre as mulheres \u00e9 estruturante e decorrente do atual modelo de minera\u00e7\u00e3o sustentado na superexplora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho, no patriarcado, na misoginia, no machismo, no racismo e na destrui\u00e7\u00e3o ambiental, e diante de tais determinantes as mulheres desencadeiam e assumem o protagonismo nas lutas sociais e resist\u00eancias coletivas travadas historicamente nesta parte do vasto territ\u00f3rio latino-americano.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Introdu\u00e7\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><br>A rela\u00e7\u00e3o \u2018mulheres e minera\u00e7\u00e3o\u2019 ocorre de diferentes formas. H\u00e1 as trabalhadoras diretas e as terceirizadas nas mineradoras, que dispendem sua vida em prol da sobreviv\u00eancia, e neste contexto s\u00e3o superexploradas e submetidas a condi\u00e7\u00f5es de ass\u00e9dio e sexismo por chefias. H\u00e1 as garimpeiras tradicionais que garantem o sustento familiar e lutam pela manuten\u00e7\u00e3o e preserva\u00e7\u00e3o desse modo de vida e pr\u00e1tica secular. H\u00e1 as atingidas pelos rompimentos criminosos de barragens de rejeitos e pela destrui\u00e7\u00e3o cotidiana que o processo produtivo desencadeia. H\u00e1 as que vivenciam as dores, as perdas materiais e imateriais e o luto pela morte de entes queridos em decorr\u00eancia do atual modelo de minera\u00e7\u00e3o, que \u00e9 de acidentes e mortes. H\u00e1 as mulheres estudantes, docentes e pesquisadoras, de diversas \u00e1reas do conhecimento, que se dedicam a estudar e compreender o contexto da extra\u00e7\u00e3o mineral, colocando seus conhecimentos em prol dos territ\u00f3rios, comunidades e popula\u00e7\u00f5es atingidas por esta atividade predat\u00f3ria. H\u00e1 as lutadoras sociais que dedicam sua atua\u00e7\u00e3o \u00e0 den\u00fancia e ao enfrentamento \u00e0 minera\u00e7\u00e3o extrativista, que lideram, coordenam e assumem protagonismo nos movimentos sociais, nas entidades sindicais, nas comunidades, nos coletivos populares, nos territ\u00f3rios.<br>A partir destas distintas posi\u00e7\u00f5es e lugares ocupados, nas linhas seguintes, evidenciaremos aspectos do cen\u00e1rio de viol\u00eancias e das lutas travadas pelas mulheres contra a minera\u00e7\u00e3o extrativista na regi\u00e3o do quadril\u00e1tero ferr\u00edfero de Minas Gerais\u2013Brasil, territ\u00f3rio em que uma forte e potente atua\u00e7\u00e3o das mulheres ocorre historicamente.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Para tanto, o m\u00e9todo assumido \u00e9 o materialismo hist\u00f3rico-dial\u00e9tico, em que se parte da apreens\u00e3o da realidade concreta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Alcan\u00e7ando a ess\u00eancia do objeto, isto \u00e9: capturando a sua estrutura e din\u00e2mica, por meio de procedimentos anal\u00edticos e operando a sua s\u00edntese, o pesquisador a reproduz no plano do pensamento; mediante a pesquisa, viabilizada pelo m\u00e9todo, o pesquisador reproduz, no plano ideal, a ess\u00eancia do objeto que investigou (Netto, 2011: 22).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Nessa esteira, o percurso metodol\u00f3gico acontece a partir de pesquisa bibliogr\u00e1fica e documental organizada em dois \u00e2mbitos de reflex\u00e3o: uma breve contextualiza\u00e7\u00e3o da minera\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o l\u00f3cus do estudo a partir da condi\u00e7\u00e3o de capitalismo dependente que se imp\u00f5e e que a estrutura; em seguida, um retrato da realidade a partir de depoimentos e descri\u00e7\u00e3o de fatos que comprovam tal cen\u00e1rio.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">A minera\u00e7\u00e3o no quadril\u00e1tero ferr\u00edfero de Minas Gerais:<br>um contexto de destrui\u00e7\u00e3o e morte<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O continente latino-americano \u00e9 marcado secularmente pelo saqueio, expropria\u00e7\u00e3o, explora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho e destrui\u00e7\u00e3o dos bens naturais comuns. Karl Marx (2013), nas suas cl\u00e1ssicas formula\u00e7\u00f5es, j\u00e1 explicitava o contexto que se impusera sobre este ch\u00e3o e suas gentes na constitui\u00e7\u00e3o e conforma\u00e7\u00e3o do capitalismo enquanto modo de produ\u00e7\u00e3o de mercadorias e de reprodu\u00e7\u00e3o social hegem\u00f4nico no globo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><br>No bojo do capitalismo, a Am\u00e9rica Latina se conforma a partir da coloniza\u00e7\u00e3o e da explora\u00e7\u00e3o enquanto col\u00f4nia europeia, da escraviza\u00e7\u00e3o secular dos povos origin\u00e1rios e africanos, das rela\u00e7\u00f5es de opress\u00e3o de sexo e g\u00eanero, da inser\u00e7\u00e3o subordinada na divis\u00e3o internacional do trabalho, da depend\u00eancia econ\u00f4mica-pol\u00edtica-cultural-social aos pa\u00edses de capitalismo central, da superexplora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho e da destrui\u00e7\u00e3o ambiental dos bens naturais comuns que insiste em se perpetuar nestas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XXI reafirmando seu car\u00e1ter violento e espoliador. Neste ch\u00e3o, as rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4mico-pol\u00edticas capitalistas se conformam de modo dependente e subordinado, o que reitera a ins\u00edgnia de \u2018quintal do mundo desenvolvido\u2019. Daqui, por meio das \u2018trocas desiguais\u2019 e da \u2018transfer\u00eancia de valor\u2019, s\u00e3o fornecidas \u00e0s economias imperialistas mat\u00e9rias-primas industriais e g\u00eaneros aliment\u00edcios e sob estes aspectos nos s\u00e3o retirados for\u00e7osamente os bens naturais comuns e a nossa exist\u00eancia-vida, por meio da superexplora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho (Marini, 2005).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><br>No contexto do saqueio mundial e da depend\u00eancia latino-americana, o estado de Minas Gerais- Brasil ocupa um lugar emblem\u00e1tico na hist\u00f3ria. No passado, foi saqueado pelas metr\u00f3poles europeias, e no presente, pelas na\u00e7\u00f5es imperialistas. \u00c9 neste territ\u00f3rio que se localiza o chamado quadril\u00e1tero ferr\u00edfero que<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">[\u2026] \u00e9 a mais importante prov\u00edncia mineral do sudeste do Brasil. Localizado na regi\u00e3o centro sul do estado de Minas Gerais \u00e9 o marco principal da interioriza\u00e7\u00e3o da ocupa\u00e7\u00e3o portuguesa no s\u00e9culo XVIII. Desde a descoberta do ouro no final do s\u00e9culo XVII at\u00e9 os dias de hoje a regi\u00e3o do Quadril\u00e1tero Ferr\u00edfero abriga a maior concentra\u00e7\u00e3o urbana do estado de Minas Gerais. Nele foram fundadas as primeiras vilas afastadas do litoral, Ouro Preto, patrim\u00f4nio cultural da humanidade pela Unesco, e Mariana, que possuem um rico acervo arquitet\u00f4nico e cultural barroco, express\u00e3o m\u00e1xima do ciclo do ouro no Brasil. Ouro Preto recebeu o t\u00edtulo de patrim\u00f4nio cultural da humanidade pela Unesco em 1980. Com cerca de 7000 km2 em \u00e1rea o Quadril\u00e1tero Ferr\u00edfero \u00e9 o limite ocidental da Mata Atl\u00e2ntica no centro de Minas Gerais. O estado de Minas Gerais tem na minera\u00e7\u00e3o uma de suas principais atividades industriais. E o Quadril\u00e1tero Ferr\u00edfero \u00e9 a regi\u00e3o que mais se destaca em fun\u00e7\u00e3o das jazidas de ferro. Estimativas do in\u00edcio do s\u00e9culo apontam que mais de 55 milh\u00f5es de toneladas de min\u00e9rio de ferro eram anualmente explotadas. A regi\u00e3o tem grande import\u00e2ncia econ\u00f4mica e social no estado. Em sua parte norte, est\u00e1 localizada a capital o estado, Belo Horizonte com cerca de 2,4 milh\u00f5es de habitantes. Os munic\u00edpios da regi\u00e3o t\u00eam uma popula\u00e7\u00e3o que corresponde a cerca de 22% da popula\u00e7\u00e3o do estado e a sua produ\u00e7\u00e3o abrange 26,8% do PIB de Minas Gerais. (UFOP, 2022)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Esta regi\u00e3o possui marcas sangrentas decorrentes da destrui\u00e7\u00e3o da fauna, da flora e dos mananciais de \u00e1gua, dos acidentes de trabalho, das mortes desencadeadas por in\u00fameros rompimentos criminosos de barragens de rejeitos da minera\u00e7\u00e3o extrativista em atua\u00e7\u00e3o. Sua hist\u00f3ria recente \u00e9 marcada a \u2018sangue e lama\u2019 pelos rompimentos criminosos de barragens. Em 2015, no munic\u00edpio de Mariana-MG, O rompimento\/crime da barragem de Fund\u00e3o, de propriedade das mineradoras Samarco Minera\u00e7\u00e3o, Vale S.A. e BHP Billiton<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">[\u2026] despejou 43,7 milh\u00f5es de metros c\u00fabicos de rejeitos na bacia hidrogr\u00e1fica do rio Doce, deixando um lastro de vinte mortes entre moradores do distrito de Bento Rodrigues, que foi imediatamente atingido, e trabalhadores que estavam no canteiro de obras da barragem. A lama tamb\u00e9m destruiu e matou a fauna e a flora ao longo dos mais de 600 quil\u00f4metros de rios at\u00e9 chegar e adentrar o oceano no estado do Esp\u00edrito Santo. Foram atingidos 36 munic\u00edpios mineiros e 03 capixabas. (Bertollo; Nogueira, 2020: 102)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Em 2019, no munic\u00edpio de Brumadinho-MG, o rompimento\/crime da barragem da Mina C\u00f3rrego do Feij\u00e3o de propriedade da Vale S.A. [\u2026] despejou cerca de treze milh\u00f5es de metros c\u00fabicos de rejeitos, tendo sido considerado o maior acidente de trabalho com perdas de vidas humanas do pa\u00eds. Foram causadas, imediatamente, cerca de 300 mortes de trabalhadores da mineradora que naquele momento cumpriam expediente e, tamb\u00e9m, de moradores e moradoras locais. [\u2026] No que se refere aos danos ambientais, al\u00e9m de destruir fortemente o munic\u00edpio de Brumadinho e o distrito de C\u00f3rrego do Feij\u00e3o, o rompimento\/crime atingiu diretamente v\u00e1rios munic\u00edpios ao longo da bacia do rio Paraopeba causando danos irrepar\u00e1veis \u00e0 fauna e flora. (Bertollo; Nogueira, 2020: 102-103)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Tais rompimentos criminosos explicitam o modos operandi do capital e de seus expoentes-das mineradoras, neste ch\u00e3o secularmente saqueado e explorado. O padr\u00e3o de reprodu\u00e7\u00e3o do capital nos marcos do capitalismo dependente<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">[\u2026] produz e transfere valor \u00e0s na\u00e7\u00f5es imperialistas e suas classes dominantes, deixa para este ch\u00e3o destrui\u00e7\u00e3o ambiental e explora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho, o que conforma um cen\u00e1rio de viol\u00eancias, viola\u00e7\u00f5es, opress\u00f5es. (Bertollo, 2021: 467)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u00c9 a partir de tais determinantes que a luta de classes se acirra, e nesta, as lutas sociais, dialeticamente, se afloram com for\u00e7a e protagonismo das mulheres, tornando as resist\u00eancias cada vez mais enraizadas e articuladas nas comunidades e entre os territ\u00f3rios atingidos pela minera\u00e7\u00e3o extrativista na regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O cen\u00e1rio de explora\u00e7\u00e3o, viol\u00eancia e opress\u00f5es:<br>retratos da sua incid\u00eancia sobre as mulheres<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><br>O cotidiano das popula\u00e7\u00f5es e comunidades que vivem no entorno dos complexos produtivos da minera\u00e7\u00e3o, pr\u00f3ximo \u00e0s barragens de rejeitos e aos complexos produtivos\/minas \u00e9 de destrui\u00e7\u00e3o ambiental, viol\u00eancia e opress\u00f5es. Esse cen\u00e1rio de \u2018morte em vida\u2019 recai mais fortemente sobre as mulheres, uma vez que a sociabilidade burguesa tem a opress\u00e3o de sexo e g\u00eanero como alguns dos seus pilares de sustenta\u00e7\u00e3o. E neste territ\u00f3rio conformado secularmente pela escraviza\u00e7\u00e3o do povo negro, \u00e9 imprescind\u00edvel reconhecer que o racismo tamb\u00e9m se perpetua como um elemento estruturante das opress\u00f5es e viol\u00eancias sobre as mulheres em luta contra a minera\u00e7\u00e3o extrativista.<br>Reconhecendo tais premissas violentas e opressoras, nas linhas que seguem evidenciaremos alguns \u00e2mbitos desse contexto que se p\u00f5e sobre as mulheres, bem como sua for\u00e7a, resist\u00eancia e protagonismo nas lutas travadas historicamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Sobre as perdas e o luto os acidentes de trabalho e as mortes na minera\u00e7\u00e3o s\u00e3o uma constante<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Considerada como a atividade econ\u00f4mica que mais mata trabalhadores no Brasil, somente em 2016, quando a taxa nacional de \u00f3bitos no trabalho foi de 5,57 para cada grupo de 100 mil empregados formais, a minera\u00e7\u00e3o registrou uma taxa de 14,81 mortes, ou seja, as atividades do setor mineral matavam tr\u00eas vezes mais que a m\u00e9dia dos outros setores. De acordo com os dados do Observat\u00f3rio de Sa\u00fade e Seguran\u00e7a do Trabalho do Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho (OBSERVAT\u00d3RIO SST, 2020), nas mineradoras, no Brasil, foram 25.650 notifica\u00e7\u00f5es de acidentes de trabalho, entre 2012 e 2018, sendo que uma parcela dessas v\u00edtimas teve que se aposentar por invalidez ou morreu. (Coelho et al., 2020: 125)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Minas Gerais possui estimativas elevadas de acidentes e mortes no processo produtivo da minera\u00e7\u00e3o extrativista. Oliveira (2015) afirma que entre 1986 e 2014 ocorreram 06 rompimentos que desencadearam mortes de trabalhadores da minera\u00e7\u00e3o no estado. A maioria destes rompimentos ocorreu na regi\u00e3o do quadril\u00e1tero ferr\u00edfero, que em 2015 e 2019 fica marcada pelos j\u00e1 mencionados rompimentos da Barragem de Fund\u00e3o em Mariana-MG, e da Barragem B1 em Brumadinho-MG, que ganharam repercuss\u00e3o mundial.<br>Acerca das mulheres que lutam para recome\u00e7ar suas vidas depois de terem sofrido perdas e vivenciarem a dor do luto em decorr\u00eancia da morte de familiares em rompimentos de barragens da minera\u00e7\u00e3o em Minas Gerais, Monteiro (2020), afirma que<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Todas elas s\u00e3o unidas pelo fato de serem mulheres. E a gente ainda tem uma cultura muito machista. Algumas n\u00e3o trabalhavam at\u00e9 ent\u00e3o e seguiam a rotina do homem provedor. Mas, no fim, s\u00e3o as mulheres que ficam, s\u00e3o elas quem aguentam o baque. Elas precisam ser muito fortes, t\u00eam filhos pra criar, uma vida para continuar e precisam superar o trauma. [\u2026] O que une essas mulheres tamb\u00e9m \u00e9 a for\u00e7a de seguir em frente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Uma m\u00e3e que perdeu o seu filho no rompimento\/crime da Barragem B1, de propriedade da mineradora Vale S.A., em Brumadinho, diz: \u201cVale assassina. Meu fio n\u00e3o sai do meu pensamento. Fico olhando pro port\u00e3o e esperando [\u2026]. Onde j\u00e1 se viu m\u00e3e enterrar fio?\u201d (Vespa, 2019). Al\u00e9m do luto pelos filhos j\u00e1 adultos, \u00e9 relevante mencionar que os rompimentos criminosos ocorridos em Mariana-MG e em Brumadinho-MG causaram, respectivamente, um aborto involunt\u00e1rio em uma moradora do distrito de Bento Rodrigues, e a morte de uma trabalhadora gr\u00e1vida de uma menina. A moradora atingida, mulher gestante que sofreu o aborto relata o contexto de p\u00e2nico, dor e sofrimento em meio \u00e0 lama de rejeitos de min\u00e9rio de ferro<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Eu pedi a Deus que se fosse da vontade Dele, deixasse meu filho sobreviver, mas se fosse para ele morrer, eu entenderia. Foi quando senti meu filho sair da minha barriga, caindo pelas minhas pernas. [\u2026] Pode ter sido melhor assim, pois engoli tanta lama que ele poderia nascer sem sa\u00fade. Pensei que tamb\u00e9m iria morrer. At\u00e9 hoje sinto dores no corpo. Perdi meu filho de 3 meses e minha sobrinha, que 40 minutos antes foi em casa e ao sair me pediu ben\u00e7\u00e3o. Vou lutar por meus direitos at\u00e9 o fim. Dinheiro nenhum vai traz\u00ea-los de volta. Mas n\u00e3o vou desistir. (Madruga, 2015)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Esse contexto de perdas e luto pelos familiares assassinados no processo produtivo da minera\u00e7\u00e3o extrativista \u00e9 sentido pelas m\u00e3es e pais, irm\u00e3os e irm\u00e3s, filhos e filhas, amigos e amigas dos homens e mulheres que sa\u00edram de casa em busca do sustento da fam\u00edlia e jamais retornaram. Tamb\u00e9m, \u00e9 muito fortemente sentido pelas mulheres companheiras desses trabalhadores, uma vez que se soma \u00e0 dor e sofrimento pelas mortes, outras quest\u00f5es dolorosas e opressivas, tais como o machismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Sobre o machismo, ass\u00e9dios e cal\u00fanias<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><br>O capitalismo pressup\u00f5e as opress\u00f5es de sexo e g\u00eanero. As tentativas incessantes de calar e ocultar as mulheres, seus anseios, pautas e lutas s\u00e3o uma constante tanto na esfera da produ\u00e7\u00e3o como na esfera da reprodu\u00e7\u00e3o social. Em uma an\u00e1lise cr\u00edtica a tal contexto e premissas, Toledo (2017: 30) afirma:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">[\u2026] cultua-se a ideia de que a mulher \u00e9 um ser inferior porque \u00e9 mais fr\u00e1gil fisicamente que o homem e tem o c\u00e9rebro menor e o cora\u00e7\u00e3o maior. Portanto, seria menos inteligente, menos racional e mais emotiva e sentimental. Logo, s\u00f3 serve para ter filhos e cuidar da casa e da fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O contexto da minera\u00e7\u00e3o extrativista na regi\u00e3o do quadril\u00e1tero ferr\u00edfero carrega e reproduz tais \u00e2mbitos estruturantes das rela\u00e7\u00f5es sociais sob a \u00e9gide do capital. Uma mulher, vi\u00fava de seu companheiro morto no rompimento ocorrido em Brumadinho-MG relata:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">E pras vi\u00favas que ficaram tem que ter muita for\u00e7a, sabe, porque o preconceito \u00e9 muito grande. As pessoas fazem muita piadinha. Ningu\u00e9m respeita o sentimento dos outros, n\u00e9. Se v\u00ea voc\u00ea ali conversando com a pessoa, j\u00e1 fala: olha l\u00e1 j\u00e1 t\u00e1 arrumando um, n\u00e9. E pra pessoa, pra mulher escutar isso \u00e9 muito doloroso, \u00e9 muito doloroso, porque o homem n\u00e3o tem isso, n\u00e9. O homem, se acontece alguma coisa, a esposa morre ou se ele separa, tudo \u00e9 normal, e pra mulher n\u00e3o \u00e9 normal, n\u00e9. Ent\u00e3o assim, as pessoas elas olham pra gente como: h\u00e1\u2026 t\u00e1 com a vida feita, n\u00e9! Ha\u2026 o homem deixou a mulher, agora o outro vai pegar. Agora quem pegar, \u00e9 um bom partido, n\u00e9. Eu j\u00e1 escutei isso. Agora as pessoas falando: agora voc\u00ea \u00e9 um partid\u00e3o! As pessoas n\u00e3o respeitam o sentimento da gente, n\u00e3o. E se v\u00ea a gente rindo um pouquinho j\u00e1 fala: olha l\u00e1, nem lembra mais do marido, n\u00e9. S\u00f3 que a hist\u00f3ria, ela \u00e9 outra. (Monteiro, 2020b)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Acerca do rompimento\/crime da barragem de Fund\u00e3o em Mariana-MG, s\u00e3o in\u00fameras as express\u00f5es do machismo e da opress\u00e3o que se imp\u00f5em sobre as mulheres atingidas ao longo dos 600 km de destrui\u00e7\u00e3o causada pela lama de rejeitos. O n\u00e3o reconhecimento enquanto provedoras da renda familiar, pela Funda\u00e7\u00e3o Renova \u00e9 uma dessas express\u00f5es, sendo fortemente denunciado pelas pr\u00f3prias mulheres atingidas e por movimentos sociais que atuam na causa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">As mulheres atingidas n\u00e3o est\u00e3o sendo reconhecidas para efeitos de pol\u00edticas de indeniza\u00e7\u00e3o da Funda\u00e7\u00e3o Renova. Essa viola\u00e7\u00e3o come\u00e7a no processo de cadastramento: em geral n\u00e3o s\u00e3o realizados atendimentos individuais dos membros da fam\u00edlia, dada a situa\u00e7\u00e3o de desigualdade de g\u00eanero imposta pela presen\u00e7a do patriarcado na sociedade, e em muitos casos o preenchimento das informa\u00e7\u00f5es foram realizados pelos homens. [\u2026] O universo de cadastrados \u00e9 em m\u00e9dia 50% homens e 50% mulheres. Sendo que apenas 30% das mulheres recebem algum tipo de benef\u00edcio, em geral na condi\u00e7\u00e3o de dependente do marido, apesar da Delibera\u00e7\u00e3o n\u00ba 119 do Comit\u00ea Inter Federativo (CIF) estabelecer que no processo de indeniza\u00e7\u00e3o n\u00e3o deve haver discrimina\u00e7\u00e3o de origem, ra\u00e7a, sexo, cor, idade e qualquer outra forma [\u2026] trabalhos de mulheres associados \u00e0 cadeia de pesca, como a limpeza dos peixes, a prepara\u00e7\u00e3o das redes e a pesca para alimenta\u00e7\u00e3o, s\u00e3o vistos como auxiliares, n\u00e3o passando a integrar os aux\u00edlios e indeniza\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m desses, atividades como comerciantes\/barraqueiras; vendedoras de produtos, salgados, \u00e1gua, chup-chup para turistas no rio; e sal\u00e3o de beleza, n\u00e3o s\u00e3o reconhecidos como afetados pelo empreendimento (MAB, 2020).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Outra forma de viol\u00eancia sobre as mulheres que decorre do rompimento\/crime e do processo de reconstru\u00e7\u00e3o e restaura\u00e7\u00e3o dos danos materiais, \u00e9 o ass\u00e9dio sexual realizado por homens trabalhadores das empresas terceirizadas que passaram a conformar a din\u00e2mica laboral e cotidiana dos locais destru\u00eddos, conforme \u00e9 explicitado em reportagem especial publicada no jornal \u2018A Sirene\u2019, meio de comunica\u00e7\u00e3o e den\u00fancia elaborado pelos pr\u00f3prios atingidos e atingidas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Al\u00e9m do desafio de n\u00e3o serem reconhecidas como trabalhadoras pelas empresas causadoras dos danos (Samarco, Vale e BHP Billiton) ao serem consideradas como dependentes dos maridos no processo de cadastramento, as mulheres tamb\u00e9m sofrem com o ass\u00e9dio dos trabalhadores das terceirizadas contratadas para atuar nas comunidades. A chegada de tantos homens nas cidades de Barra Longa e Rio Doce alterou o cotidiano dessas mulheres e trouxe novos problemas para regi\u00f5es que j\u00e1 sofreram tanto com o crime das mineradoras. (A Sirene, 2019: 7)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">A defesa dos territ\u00f3rios, das comunidades e redes de vizinhan\u00e7a tamb\u00e9m coloca as mulheres como alvo de persegui\u00e7\u00e3o, ass\u00e9dio e cal\u00fanias, por vezes, de pr\u00f3prias lideran\u00e7as locais que se alinham \u00e0s mineradoras e atuam de forma a apaziguar &#8211; da pior e mais trai\u00e7oeira maneira poss\u00edvel &#8211; as lutas cotidianas travadas pelas lideran\u00e7as mulheres que pautam os interesses leg\u00edtimos dos territ\u00f3rios, comunidades e popula\u00e7\u00e3o, tal qual \u00e9 explicitado e denunciado em notas de rep\u00fadio emitidas pela Frente Mineira de Luta das Atingidas e Atingidos pela Minera\u00e7\u00e3o em Minas Gerais (FLAMa).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">[\u2026] amea\u00e7as, agress\u00f5es e assassinatos s\u00e3o cada vez mais frequentes em territ\u00f3rios que se encontram sob tens\u00e3o e conflitos sociais. [\u2026] Nesses territ\u00f3rios, s\u00e3o comuns os casos em que homens ligados \u00e0s empresas, seja por interesses pol\u00edticos, seja por interesses econ\u00f4micos, atuam de maneira brutal no silenciamento das mulheres lutadoras sociais. Por meio das redes sociais e de mensagens privadas repletas de ironia, sarcasmo, de ambiguidades que deixam um cheiro de amea\u00e7a no ar, esses homens, orientados pelo machismo e preconceito e, pela coniv\u00eancia das autoridades, se sentem totalmente \u00e0 vontade para se manifestarem de forma amea\u00e7adora e silenciadora sobre n\u00e3o somente as mulheres lutadoras sociais, mas tamb\u00e9m, contra qualquer mulher que ouse se manifestar contra os interesses da ordem capitalista vigente. Em Ant\u00f4nio Pereira, distrito duramente assolado pelos conflitos decorrentes da atividade miner\u00e1ria da Mina de Timbopeba, de propriedade da Vale, e de sua barragem mais pr\u00f3xima do meio urbano, a barragem do Doutor, n\u00e3o \u00e9 diferente. Da mesma forma que ocorre no mundo todo, vemos nesse distrito o seguinte cen\u00e1rio: homens que se sentem \u00e0 vontade para ridicularizar, silenciar, ofender e amea\u00e7ar mulheres que se colocam a favor e lutam pelos leg\u00edtimos interesses da comunidade, da popula\u00e7\u00e3o local e contra os interesses da mineradora, que \u00e9 de continuar destruindo o territ\u00f3rio e lucrando com isso. (FLAMA, 2021)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Tais manifesta\u00e7\u00f5es de opress\u00e3o sobre as mulheres lutadoras sociais ocorrem fortemente articuladas com a repress\u00e3o policial, aspecto que tem se agravado na regi\u00e3o do quadril\u00e1tero ferr\u00edfero no tempo presente, e que \u00e9 denunciado e repudiado pelas entidades e organiza\u00e7\u00f5es da classe trabalhadora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Sobre a repress\u00e3o policial<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><br>O contexto repressivo, em que se utilizam aparatos policiais para coagir e apaziguar as resist\u00eancias protagonizadas pelas mulheres lutadoras sociais, \u00e9 explicitado e denunciado em nota emitida pela FLAMa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><br>Essas repress\u00f5es e criminaliza\u00e7\u00f5es incidem fortemente sobre as mulheres lutadoras sociais. S\u00e3o m\u00e3es, esposas, irm\u00e3s, filhas que se p\u00f5em na luta e resist\u00eancia, mas que s\u00e3o expostas e submetidas a situa\u00e7\u00f5es de machismo, sexismo e racismo por parte das mineradoras e suas equipes de trabalho que atuam nos processos de repara\u00e7\u00e3o, e tamb\u00e9m por parte do poder policial que interv\u00e9m nas atividades de den\u00fancia e resist\u00eancia protagonizadas pelas comunidades e por estas mulheres. (FLAMA, 2021a)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Uma das estrat\u00e9gias de luta assumidas historicamente pelas popula\u00e7\u00f5es atingidas pelas minera\u00e7\u00e3o extrativista \u00e9 o fechamento de estradas. No distrito ouropretano de Ant\u00f4nio Pereira a\u00e7\u00f5es de fechamento das estradas e paraliza\u00e7\u00e3o do tr\u00e2nsito, especialmente dos \u00f4nibus que levam os trabalhadores para as minas, t\u00eam sido utilizadas pela comunidade a fim de evidenciar o descaso do poder p\u00fablico e as viol\u00eancias que as mineradoras imp\u00f5em \u00e0 comunidade e ao territ\u00f3rio. Prioritariamente, tais a\u00e7\u00f5es ocorrem a partir do protagonismo das mulheres<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Mulheres \u201cGuerreiras de Ant\u00f4nio Pereira\u201d fecham MG 129, nesta quarta-feira 1\/12, mesmo debaixo de chuva, para reivindicar Assessoria T\u00e9cnica aos atingidos pela Minera\u00e7\u00e3o em Ant\u00f4nio Pereira pararam o trevo de acesso a Bento Rodrigues. A comunidade reclama o sofrimento com os impactos do risco do rompimento da barragem Doutor. Os atingidos cobram por direitos, Assessoria T\u00e9cnica Independente, novas remo\u00e7\u00f5es e investimento na sa\u00fade do distrito. As mulheres temiam repres\u00e1lias da Vale e da PM.n. (Di\u00e1rio de Ouro Preto, 2021)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Sobre esta mesma manifesta\u00e7\u00e3o, Loureiro (2021) retrata o contexto de interven\u00e7\u00e3o e repress\u00e3o policial sobre as manifestantes:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">A manifesta\u00e7\u00e3o foi dispersada poucos minutos depois das 9h da manh\u00e3, tendo ocorrido a a\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Militar de Minas Gerais (PMMG), com v\u00e1rias viaturas e policiais. A Ag\u00eancia Primaz apurou que essa a\u00e7\u00e3o n\u00e3o contou com a atua\u00e7\u00e3o de integrantes do sub-destacamento da PMMG localizado em Ant\u00f4nio Pereira, uma vez que o ato foi realizado fora de seus limites de jurisdi\u00e7\u00e3o. Em v\u00eddeo divulgado nas redes sociais, a a\u00e7\u00e3o da PMMG foi parcialmente documentada, sendo poss\u00edvel ver policiais militares tentando impedir o deslocamento dos manifestantes pela rodovia, em dire\u00e7\u00e3o ao distrito de Ant\u00f4nio Pereira. \u201cN\u00e3o vai ser permitido subir continuando \u2018fechando\u2019 a rodovia. J\u00e1 extrapolaram o tempo, voc\u00eas n\u00e3o querem acordo, voc\u00eas n\u00e3o querem di\u00e1logo. Ent\u00e3o o alerta j\u00e1 foi feito. A ordem \u00e9 \u2018pra\u2019 liberar a via, \u2018t\u00e1 ok\u2019? Quem recusar liberar a via vai ser conduzido em flagrante\u201d, diz um policial, cuja identifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ser feita pelo v\u00eddeo. (Grifos originais)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u00c9 percept\u00edvel que a coer\u00e7\u00e3o \u00e9 utilizada, mesmo que travestida sob o manto da \u2018orienta\u00e7\u00e3o\u2019 \u00e0s manifestantes. A partir de tal realidade, a FLAMa reitera<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">[\u2026] As mulheres n\u00e3o se calar\u00e3o diante da repress\u00e3o do poder p\u00fablico, especialmente o policial, que criminaliza quem luta e resiste ao inv\u00e9s de atuar sobre os verdadeiros respons\u00e1veis pelos crimes contra a vida, o meio ambiente e o bem comum das comunidades atingidas pela minera\u00e7\u00e3o. (FLAMA, 2021a)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Este contexto de repress\u00e3o e amea\u00e7as articula-se com a burocracia e morosidade assumidas como forma de funcionamento de diferentes inst\u00e2ncias, inclusive daqueles que deveriam assumir a defesa dos direitos e demandas que a popula\u00e7\u00e3o apresenta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Sobre a burocracia estatal, do judici\u00e1rio, das mineradoras e da Funda\u00e7\u00e3o Renova<br>A burocracia Estatal, do judici\u00e1rio, das mineradoras e da Funda\u00e7\u00e3o Renova no trato com as comunidades e popula\u00e7\u00f5es atingidas \u00e9 uma engrenagem funcional ao atual modelo de minera\u00e7\u00e3o no quadril\u00e1tero ferr\u00edfero de Minas Gerais. S\u00e3o not\u00f3rios os desgastes, os constrangimentos, os cansa\u00e7os e os adoecimentos decorrentes da morosidade destes tr\u00e2mites burocr\u00e1ticos. Percebe-se que as lutas sociais, as den\u00fancias e reivindica\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias-populares tendem a ser desrespeitadas e sucumbidas diante dos interesses das mineradoras, que, no caso do rompimento\/crime da barragem de Fund\u00e3o, s\u00e3o materializados a partir da atua\u00e7\u00e3o da Funda\u00e7\u00e3o Renova, com respaldo legal-jur\u00eddico e normativo pelo Estado Brasileiro (Bertollo, 2018).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><br>Passados 06 anos do rompimento\/crime da barragem de Fund\u00e3o, e 03 anos do rompimento\/crime da barragem B1, temos um cen\u00e1rio de morosidade em ambos os casos. Na voz dos\/as atingidos\/as e dos movimentos sociais, estes s\u00e3o \u201ccrimes que se renovam\u201d cotidianamente, e \u201cpor renovar-se a cada dia, novos dilemas, dificuldades e entraves se colocam a estes sujeitos v\u00edtimas do processo de extra\u00e7\u00e3o de mais valor via processo produtivo pautado na minera\u00e7\u00e3o extrativista [\u2026]\u201d (Bertollo, 2018: 249).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Com tantos recursos e poder, era de se esperar que as mineradoras buscassem agilidade e compet\u00eancia no processo de repara\u00e7\u00e3o, mas o que se v\u00ea s\u00e3o caras propagandas transmitindo inverdades no hor\u00e1rio nobre da TV e a disponibiliza\u00e7\u00e3o dos recursos para a Funda\u00e7\u00e3o Renova, uma organiza\u00e7\u00e3o criada por essas empresas para \u201cgerir\u201d o processo de repara\u00e7\u00e3o e quase nenhuma efetividade nas respostas a quem de fato interessa: as pessoas atingidas. (C\u00e1ritas Brasileira, 2020)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Acerca do processo de repara\u00e7\u00e3o dos danos (e da burocracia e morosidade) decorrentes do rompimento\/crime da barragem de Fund\u00e3o e que perpassam a rela\u00e7\u00e3o entre os\/as atingidos\/as, a Funda\u00e7\u00e3o Renova e as equipes de Assessoria T\u00e9cnica Independente (ATI); as entidades C\u00e1ritas Brasileira, FLAMA e Associa\u00e7\u00e3o Estadual de Defesa Ambiental e Social (AEDAS)- denunciam, a partir de uma \u2018Nota p\u00fablica em defesa das matrizes de danos constru\u00eddas com a popula\u00e7\u00e3o atingida por uma indeniza\u00e7\u00e3o justa e integral\u2019, que<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">A Funda\u00e7\u00e3o Renova \u00e9 a respons\u00e1vel pela repara\u00e7\u00e3o dos danos, contudo, vem conduzindo as negocia\u00e7\u00f5es para indeniza\u00e7\u00e3o com regras e crit\u00e9rios elencados de forma unilateral, propondo valores irris\u00f3rios e visando defender os interesses de suas mantenedoras, r\u00e9s do desastre-crime: Samarco, Vale e BHP. [\u2026] O modelo indenizat\u00f3rio proposto pela Funda\u00e7\u00e3o Renova no munic\u00edpio de Mariana, assim como o sistema indenizat\u00f3rio simplificado chamado \u201cNovel\u201d aplicado em Barra Longa e em munic\u00edpio da Bacia do Rio Doce, reproduzem a viola\u00e7\u00e3o aos direitos humanos e ao meio ambiente condizentes com o n\u00edvel do constrangimento causado pelo desastre-crime. (C\u00e1ritas, 2021)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u00c9 superficial e sem efetividade o conjunto de a\u00e7\u00f5es operacionalizadas pela Funda\u00e7\u00e3o criada para fins de repara\u00e7\u00e3o e reconstru\u00e7\u00e3o das comunidades atingidas e destru\u00eddas. E nesse emaranhado de programas, reuni\u00f5es, cadastros e procedimentos excludentes, as mulheres se configuram como duplamente violentadas e oprimidas, conforme \u00e9 denunciado pelo Movimento de Atingidos por Barragens (MAB)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Sobre o cadastro, o AFE e o PIM, os programas da Funda\u00e7\u00e3o Renova que as mulheres reclamaram na ouvidoria, as principais quest\u00f5es colocadas por elas s\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es sobre a situa\u00e7\u00e3o do cadastro, atrasos, demoras e erros no pagamento dos aux\u00edlios e das indeniza\u00e7\u00f5es. Em um processo em que as mulheres n\u00e3o s\u00e3o reconhecidas e n\u00e3o recebem seus direitos de forma independente \u00e9 de se esperar um aumento da vulnerabilidade, dificuldade de arcar com os custos do lar, sobrecarga dom\u00e9stica e na sa\u00fade mental, assim como aumento dos conflitos familiares. (MAB, 2020)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Em rela\u00e7\u00e3o ao rompimento\/crime da Vale em Brumadinho, a situa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 de morosidade, burocracia, pactua\u00e7\u00f5es e negocia\u00e7\u00f5es sem a presen\u00e7a, e que desconsideram as demandas dos\/as atingidos\/as.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Enquanto os problemas econ\u00f4micos, sociais e ambientais se ampliam, a Vale busca ter o controle do processo de repara\u00e7\u00e3o dos danos causados por ela mesma, utilizando-se de todos mecanismos \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o da segunda maior mineradora do mundo. Al\u00e9m de articular nos governos e no Poder Judici\u00e1rio diversas formas de negar direitos, dificultando a participa\u00e7\u00e3o dos atingidos no processo, a empresa trabalha cooptando lideran\u00e7as locais para criar conflitos entre os moradores e enfraquecer a luta coletiva. Al\u00e9m disso, promove ass\u00e9dio moral atrav\u00e9s de seus funcion\u00e1rios. Paralelamente a essa atua\u00e7\u00e3o deplor\u00e1vel no territ\u00f3rio, em fevereiro de 2020, a empresa fez um acordo com o governo do estado e entidades de justi\u00e7a, sob sigilo e sem o envolvimento das fam\u00edlias atingidas, economizando R$ 17 bilh\u00f5es. Dos R$ 54 bilh\u00f5es pedidos nas a\u00e7\u00f5es de repara\u00e7\u00e3o dos danos, a Vale vai pagar apenas R$ 37 bilh\u00f5es. Parte desse montante ser\u00e1 transferido para o governo do estado investir em obras que nada t\u00eam a ver com a repara\u00e7\u00e3o do crime de Brumadinho. (MAB, 2022)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O contexto burocr\u00e1tico, moroso e desrespeitoso tamb\u00e9m \u00e9 cotidianamente vivenciado pelas comunidades e popula\u00e7\u00f5es que residem no entorno das barragens que est\u00e3o em alto risco de rompimento. Essa \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o a que o distrito de Ant\u00f4nio Pereira \u00e9 submetido h\u00e1 anos em decorr\u00eancia do complexo produtivo da Mina Timbopeba e da barragem do Doutor, localizada a poucos metros das resid\u00eancias, escolas, rios e \u00e1reas de preserva\u00e7\u00e3o ambiental. No entanto, a Vale S.A. recusa o di\u00e1logo e dificulta\/n\u00e3o presta atendimento efetivo \u00e0 comunidade. A op\u00e7\u00e3o assumida pela mineradora \u00e9 a burocracia amparada em tr\u00e2mites estatais e jur\u00eddicos que portam consigo a morosidade dos processos e delibera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Em reuni\u00e3o online de negocia\u00e7\u00e3o entre Vale, Minist\u00e9rio P\u00fablico de Minas Gerais e os atingidos de Ant\u00f4nio Pereira, distrito de Ouro Preto (MG), que aconteceu na ter\u00e7a-feira (11), os atingidos discutiram as principais pautas para a regi\u00e3o e as a\u00e7\u00f5es da mineradora que impactam e amedrontam o dia a dia da comunidade. Apesar do di\u00e1logo, muitas d\u00favidas ainda permanecem no ar e a empresa n\u00e3o concordou em marcar uma nova data para continuar esclarecendo informa\u00e7\u00f5es para a popula\u00e7\u00e3o afetada da regi\u00e3o. [\u2026] na negocia\u00e7\u00e3o, representantes da Vale n\u00e3o levaram nenhuma resposta sobre os 22 pontos de reivindica\u00e7\u00e3o apresentados pela comunidade e pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico, n\u00e3o trouxeram informa\u00e7\u00f5es sobre a nova mancha de inunda\u00e7\u00e3o, anunciaram que a empresa n\u00e3o pagar\u00e1 por uma assessoria t\u00e9cnica para os atingidos e n\u00e3o concordaram em marcar uma nova data de reuni\u00e3o, mostrando o desinteresse em seguir com as negocia\u00e7\u00f5es coletivas e extrajudiciais. (MAB, 2020)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">A comunidade h\u00e1 anos enfrenta, denuncia e exp\u00f5e os desmandos da mineradora Vale S.A. em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pautas urgentes e aos direitos mais elementares da popula\u00e7\u00e3o ali residente. Em manifesta\u00e7\u00e3o pac\u00edfica, em que foi realizado o fechamento de estrada por quase 05 horas, uma moradora atingida denuncia e reivindica:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">N\u00f3s somos moradoras de Ant\u00f4nio Pereira, e estamos parando a MG-129 para reivindicar direitos nossos que a Vale est\u00e1 tirando. N\u00f3s estamos aqui no ponto onde o tr\u00e2nsito vai para Bento Rodrigues e para Ant\u00f4nio Pereira, para que a gente chame a aten\u00e7\u00e3o, e que a gente seja ouvido, por conta do desespero que n\u00f3s estamos sofrendo no territ\u00f3rio. As pessoas est\u00e3o em p\u00e2nico, n\u00e3o tem sa\u00fade, n\u00e3o confiam mais nas informa\u00e7\u00f5es da Vale, que tem dificuldade de comunica\u00e7\u00e3o com a comunidade. Ent\u00e3o, n\u00f3s estamos aqui reivindicando os direitos e pedindo, gritando socorro, pedindo apoio de toda a comunidade das cidades vizinhas e dos trabalhadores para abra\u00e7ar nossa causa, porque a situa\u00e7\u00e3o nossa \u2018t\u00e1\u2019 muito complicada e desesperadora. Estamos totalmente desolados e jogados \u00e0s tra\u00e7as. (Loureiro, 2021)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Tal situa\u00e7\u00e3o imp\u00f5em \u00e0s comunidades atingidas um contexto de adoecimento f\u00edsico e mental, que fortemente atinge as mulheres por estarem na linha de frente das resist\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Sobre o adoecimento f\u00edsico e mental<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><br>A ofensiva sobre a condi\u00e7\u00e3o de sa\u00fade f\u00edsica e mental das popula\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas aos complexos produtivos, barragens de rejeitos e atingidas diretamente pelos rompimentos criminosos \u00e9 estruturante da minera\u00e7\u00e3o extrativista na Am\u00e9rica Latina. A contamina\u00e7\u00e3o da \u00e1gua, do ar e do solo provoca adoecimentos e mortes, e neste cen\u00e1rio, \u201cos problemas de sa\u00fade gerados pelos crimes de minera\u00e7\u00e3o est\u00e3o entre os principais problemas sofridos pelas mulheres atingidas\u201d (MAB, 2019).<br>Em reuni\u00e3o com o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal, ocorrida no m\u00eas de janeiro de 2022, membro da coordena\u00e7\u00e3o estadual do Movimento pela Soberania Popular na Minera\u00e7\u00e3o (MAM), afirma<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">A gente debate a condi\u00e7\u00e3o como um todo, a contamina\u00e7\u00e3o da \u00e1gua com metais pesados, a quest\u00e3o da sa\u00fade de toda a comunidade exposta a esses metais e tamb\u00e9m a quest\u00e3o das detona\u00e7\u00f5es que est\u00e3o rachando as casas e isso tem que ser reparado. (Di\u00e1rio de Santa B\u00e1rbara, 2022: 4)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Nesse mesmo espa\u00e7o de den\u00fancia e questionamento aos \u00f3rg\u00e3os legais e normativos da justi\u00e7a brasileira, uma atingida \u2013 moradora da comunidade em que est\u00e1 instalada a barragem da mineradora AngloGold relata sobre o atual contexto de adoecimento que se abateu sobre a popula\u00e7\u00e3o do munic\u00edpio de Santa B\u00e1rbara-MG.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">A comunidade n\u00e3o confia no plano de conting\u00eancia e gerenciamento de crise promovido pela empresa e a situa\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica j\u00e1 n\u00e3o se encontra est\u00e1vel. Existem pessoas com dificuldades para cumprir suas obriga\u00e7\u00f5es pelo estado emocional comprometido, crian\u00e7as com dificuldades e dist\u00farbios de sono pelo grande impacto causado pela falta de responsabilidade social da empresa. Al\u00e9m de pessoas que tiveram gastos com atendimentos m\u00e9dicos e ambulatoriais. (Di\u00e1rio de Santa B\u00e1rbara, 2022: 4)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O agravamento da condi\u00e7\u00e3o de sa\u00fade das mulheres atingidas pelo rompimento\/crime da barragem de Fund\u00e3o, tornou-se expl\u00edcito. Estudo realizado exp\u00f5e os seguintes dados:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><a href=\"iv\">\u2026<\/a> Sa\u00fade, com destaque \u00e0 sa\u00fade f\u00edsica em geral (12,14% de recorr\u00eancia), acesso \u00e0 sa\u00fade (11,82%) e a evolu\u00e7\u00e3o ao longo dos anos dos relatos de sa\u00fade mental, que v\u00e3o de 1,2% em 2016 para 12,8% em 2019. Ainda, os relatos que apontam para condi\u00e7\u00f5es cr\u00f4nicas como c\u00e2ncer mostram-se cr\u00edticos e extremamente sens\u00edveis, assim como os que relatam tentativas de suic\u00eddio e depress\u00e3o, (v) Sobrecarga dom\u00e9stica, que se apresenta como o segundo principal tema identificado nos relatos (33,92%), sendo composto principalmente de demandas relativas \u00e0s dificuldades de manter os custos do lar (23, 64% do total geral, e que, ao longo dos anos, aumenta de 5,2% em 2016 para 37,9% em 2019) e tamb\u00e9m cuidados com filhos e netos (16% dos relatos \u201cMulheres\u201d); (vi) por fim, e n\u00e3o menos importante, aponta-se para relatos que cont\u00e9m descri\u00e7\u00f5es sobre conflitos familiares (44 relatos) e casos de viol\u00eancia dom\u00e9stica. (7 relatos) (Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas, 2029: 10-11)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Nesse bojo de adoecimento f\u00edsico e mental, uma situa\u00e7\u00e3o que passou a ser rotineira na vida das mulheres atingidas pelos rompimentos criminosos de barragens \u00e9 o adoecimento de seus familiares, especialmente seus filhos que carecem de maiores cuidados pela condi\u00e7\u00e3o de serem crian\u00e7as.<br>Uma moradora de Barra Longa-MG, munic\u00edpio atingido pelo rompimento da barragem de Fund\u00e3o, afirma sobre o adoecimento de sua filha, uma crian\u00e7a com poucos anos de vida, em decorr\u00eancia da contamina\u00e7\u00e3o pelos rejeitos de min\u00e9rio de ferro e demais subst\u00e2ncias t\u00f3xicas presentes na lama que atingiu o centro do mun\u00edcipio, e se n\u00e3o bastasse, foi utilizada para cal\u00e7ar a rua que d\u00e1 acesso \u00e0 sua moradia levando as subst\u00e2ncias t\u00f3xicas at\u00e9 a porta de sua casa. Diz ela: \u201c[\u2026] recebeu um diagn\u00f3stico grav\u00edssimo. Est\u00e1 com inflama\u00e7\u00e3o do c\u00e9rebro e no intestino e isso pode mudar o rumo da vida dela\u201d (Maciel; Pina, 2019).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><br>Sobre as consequ\u00eancias do rompimento\/crime da barragem B1 da Vale em Brumadinho-MG, que atingiu a Bacia do Rio Paraopeba e deixou um lastro de contamina\u00e7\u00e3o e adoecimentos, uma moradora de S\u00e3o Joaquim de Bicas-MG relata acerca da qualidade da \u00e1gua que chega nas torneiras de sua resid\u00eancia e \u00e9 utilizada para o consumo humano:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Como coloco uma \u00e1gua dessa para meu filho comer e beber? [\u2026] Antes da barragem estourar a gente n\u00e3o via a \u00e1gua assim. Porque eles est\u00e3o tratando com mais produto? \u00c9 porque tem alguma coisa na \u00e1gua. [\u2026] A gente vem sofrendo com a poeira. Posso limpar a casa agora e 30 minutos depois ela j\u00e1 estar\u00e1 suja novamente. A Vale poderia colocar capota nos caminh\u00f5es e n\u00e3o coloca. Isso est\u00e1 nos prejudicando muito; [\u2026] De um ano para c\u00e1, a asma piorou muito. (MAB, 2021)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Outra mulher atingida relata: \u201c[\u2026] aqui virou um mausol\u00e9u, as pessoas ficam tristes pelos cantos. A minha vida virou hospital. A minha sogra ficou t\u00e3o estressada e triste que teve v\u00e1rios AVCs [Acidentes Vasculares Cerebrais] e faleceu\u201d (Lopes, 2020).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><br>Tais relatos apontam que a condi\u00e7\u00e3o de sa\u00fade f\u00edsica e mental envolvem subjetividades destru\u00eddas e preocupa\u00e7\u00f5es com quest\u00f5es materiais diretamente vinculadas \u00e0 sobreviv\u00eancia e bem-estar familiar, e nestas, os relacionamentos estabelecidos com demais membros da fam\u00edlia, seja com os seus pais, filhos e netos, e\/ou com seus companheiros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><br>Percebe-se que apesar da condi\u00e7\u00e3o de atingida diretamente pelo rompimento\/crime, s\u00e3o as mulheres as mais responsabilizadas pelo cuidado aos seus, o que firma um panorama de viol\u00eancia e nega\u00e7\u00e3o de direitos que envolve diferentes institui\u00e7\u00f5es e interesses, muitas vezes, contr\u00e1rios ao que \u00e9 leg\u00edtimo e reivindicado pelas comunidades, configurando um cen\u00e1rio que somente perpetua o adoecimento.<br>Esse mesmo contexto, \u00e9 impulsionado por outra forma de opress\u00e3o e viol\u00eancia &#8211; o racismo, que se perpetua nessa sociabilidade de classes sociais antag\u00f4nicas. Assim, a quest\u00e3o \u00e9tnico-racial \u00e9 mais um elemento conformador da explora\u00e7\u00e3o e opress\u00f5es cotidianas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Sobre o racismo<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><br>O processo de coloniza\u00e7\u00e3o dizimou as popula\u00e7\u00f5es origin\u00e1rias da Am\u00e9rica Latina. O Brasil, o estado de Minas Gerais e as cidades que comp\u00f5em o que atualmente chamamos de quadril\u00e1tero ferr\u00edfero, especialmente Mariana-MG e Ouro Preto-MG, s\u00e3o locais marcados pela di\u00e1spora e escraviza\u00e7\u00e3o do povo negro, trazido for\u00e7adamente para trabalhar nas minas de ouro e diamantes.<br>Dados do Censo 2010 realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), explicitam que a \u201cpopula\u00e7\u00e3o negra superou a branca em Minas Gerais. [\u2026] 45,4% dos mineiros se autodeclararam brancos contra 53,5% que se denominaram negros. [\u2026] 9,2% da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 preta e 44,3% parda\u201d (MELLO, 2011). Dados mais recentes explicitam que \u201cEm Minas Gerais, em 2012, a popula\u00e7\u00e3o negra representava 55,4% do total da popula\u00e7\u00e3o do estado. Em 2019, essa propor\u00e7\u00e3o aumentou, passou para 61,0%\u201d (Funda\u00e7\u00e3o Jo\u00e3o Pinheiro, 2020).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><br>Essa realidade \u00e9tnico-racial explicita-se fortemente nos territ\u00f3rios diretamente atingidos pelo rompimento\/crime da barragem de Fund\u00e3o. Conforme Wanderley (2015), na \u00e9poca do rompimento e tomando por base dados do IBGE, a propor\u00e7\u00e3o de pretos e pardos no povoado de Bento Rodrigues era de 84,3%. No povoado de Paracatu de Baixo, tamb\u00e9m pertencente ao munic\u00edpio de Mariana-MG, a propor\u00e7\u00e3o era de 80%. J\u00e1 o percentual total da popula\u00e7\u00e3o preta e parda no munic\u00edpio era de 67,3%.<br>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Barra Longa, munic\u00edpio que tamb\u00e9m foi atingido e destru\u00eddo pelo rompimento\/crime da barragem de Fund\u00e3o, o autor explicita que a propor\u00e7\u00e3o de popula\u00e7\u00e3o preta e parda, na \u00e9poca do rompimento\/crime, era de 67%, sendo que no povoado de Gesteira, que foi completamente destru\u00eddo pela lama, a propor\u00e7\u00e3o era de 70,4% (Wanderley, 2015).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><br>Em Ouro Preto-MG, munic\u00edpio vizinho de Mariana-MG, conforme dados do Censo 2010- IBGE, \u201c70% da popula\u00e7\u00e3o se autodeclara negra\u201d al\u00e9m disso, \u00e9 marcado por \u201ctoda uma hist\u00f3ria de escravid\u00e3o\u201d (Coelho, 2017).<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">A partir de tais estimativas censit\u00e1rias, \u00e9 poss\u00edvel perceber a expressiva presen\u00e7a de descendentes dos negros e negras escravizados. S\u00e3o estes homens e mulheres, que na atualidade, conformam majoritariamente a popula\u00e7\u00e3o e consequentemente, a classe trabalhadora na regi\u00e3o. Considerando que o capitalismo se estrutura a partir do antagonismo entre as classes sociais fundamentais, neste territ\u00f3rio, o racismo constitui-se em uma engrenagem da perpetua\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o capitalista e este determinante \u00e9 cotidianamente enfrentado e denunciado pelas popula\u00e7\u00f5es e comunidades atingidas.<br>Em Audi\u00eancia P\u00fablica ocorrida no m\u00eas de novembro de 2019, no munic\u00edpio de Barra Longa-MG, as\/os atingidas\/os denunciaram a persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e0s\/aos militantes, o racismo institucional e a discrimina\u00e7\u00e3o sofrida por parte da Funda\u00e7\u00e3o Renova.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Nunca foi f\u00e1cil ser negro no Brasil, mas, antes do crime da Vale, Samarco e BHP Billiton, eu n\u00e3o precisava me preocupar com o racismo. Eu n\u00e3o sentia essas coisas na pele, porque eu vivia no meu mundo, quietinha no meu cantinho, l\u00e1 no meu alto de morro. Ap\u00f3s o crime, eu precisei ocupar espa\u00e7os que, at\u00e9 ent\u00e3o, n\u00e3o eram meus. Desde ent\u00e3o, eu tenho sentido, na pele, no corpo e na alma, a chicotada da elite. A cada passo que eu dou, eu vejo o preconceito e o racismo. A Funda\u00e7\u00e3o Renova nos persegue por sermos negros (as), sermos do alto do morro e militantes. Isso n\u00e3o tem sido f\u00e1cil. (A Sirene, 2020: 8)<\/p>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-code has-medium-font-size\"><code>Tal realidade \u00e9 forte e dolorosamente explicitada por uma mulher lutadora social, quando nos diz acerca da discrimina\u00e7\u00e3o e das tentativas de coopta\u00e7\u00e3o que vivencia: <\/code><\/pre>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Por ser negra, mulher do alto do morro, j\u00e1 \u00e9 uma invisibilidade, estou na luta j\u00e1 tem cinco anos. Imagina uma mulher preta do alto do morro militante? A empresa me fez uma proposta de sair da milit\u00e2ncia, de sair da frente das reuni\u00f5es, se eu deixar de lutar pelo povo serei reconhecida como atingida e terei todos os direitos reconhecidos, inclusive o cart\u00e3o emergencial retroativo. \u00c9 dessa forma que as empresas atuam no territ\u00f3rio, se voc\u00ea \u00e9 militante, se voc\u00ea tem coragem\u2026 a empresa \u00e9 racista e machista, se voc\u00ea consegue ter espa\u00e7o de fala voc\u00ea \u00e9 amea\u00e7ada, tentam nos silenciar o tempo todo. Um funcion\u00e1rio da empresa em uma reuni\u00e3o de negocia\u00e7\u00e3o, me mandou calar a boca. S\u00e3o essas coisas que uma atingida passa quando ela assume a posi\u00e7\u00e3o de linha de frente. (Atingida de Barra Longa) (Jorge et al. 2020: 149)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Tal condi\u00e7\u00e3o secular de explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o \u00e9tnico-racial, dialeticamente, impulsionam as resist\u00eancias coletivas e o protagonismo das mulheres neste in\u00edcio de s\u00e9culo XXI. \u00c9 o que evidenciaremos a seguir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">As mulheres nas lutas: as sementes foram<br>plantadas e germinam<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Acerca do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista e da condi\u00e7\u00e3o da mulher neste sistema econ\u00f4mico, pol\u00edtico, hist\u00f3rico e cultural, Toledo (2017: 180) afirma que<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">[\u2026] as mulheres n\u00e3o devem sentir a opress\u00e3o e submiss\u00e3o como uma exce\u00e7\u00e3o \u00e0 regra. Pelo contr\u00e1rio, devem senti-la como a confirma\u00e7\u00e3o da regra, como a confirma\u00e7\u00e3o de que vivemos num sistema injusto e desigual, em que o que prima \u00e9 a opress\u00e3o e a desigualdade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Reconhecemos que, apesar das particularidades territoriais e culturais, a explora\u00e7\u00e3o, as opress\u00f5es e viol\u00eancias advindas do contexto da minera\u00e7\u00e3o extrativista na regi\u00e3o do quadril\u00e1tero ferr\u00edfero de Minas Gerais- Brasil e que recaem sobre as mulheres lutadoras sociais s\u00e3o semelhantes \u00e0s vivenciadas pelas luchadoras e defensoras ambientales do Equador, do M\u00e9xico, da Nicar\u00e1gua, da Col\u00f4mbia, do Peru, da Argentina e demais territ\u00f3rios do nosso continente que sucumbem \u00e0 logica extrativista ao longo dos s\u00e9culos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><br>A partir de tais premissas, dos relatos e descri\u00e7\u00f5es das viol\u00eancias e viola\u00e7\u00f5es, dos sofrimentos e lutos, do machismo e do racismo que recaem sobre as mulheres, conforme procuramos evidenciar nas linhas anteriores, enfatizamos que no contexto da minera\u00e7\u00e3o extrativista na regi\u00e3o do quadril\u00e1tero ferr\u00edfero de Minas Gerais \u2013 Brasil \u00e9 fact\u00edvel que, dialeticamente, as mulheres \u201c[\u2026] s\u00e3o a linha de frente de todas as lutas, as coordenadoras de Grupo de Base, as mais presentes nas Comiss\u00f5es Locais e em todas as negocia\u00e7\u00f5es\u201d (MAB, 2020).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Hoje a mulher tomou a posi\u00e7\u00e3o de defender os direitos tanto quanto atingida como m\u00e3e de fam\u00edlia. A gente melhora quando acredita que as coisas podem ser mudadas. Leva tempo, d\u00e1 trabalho, mas a gente tem que fazer o que \u00e9 correto e justo. (MAB, 2021)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">A partir de toda modifica\u00e7\u00e3o imposta \u00e0s suas vidas, em que se tornaram de uma hora para outra atingidas diretas do maior crime socioambiental do pa\u00eds, as mulheres inseriram-se cada vez mais na din\u00e2mica das lutas sociais na regi\u00e3o, nos espa\u00e7os institucionais e pol\u00edticos de enfrentamento \u00e0 minera\u00e7\u00e3o extrativista, \u00e0s mineradoras causadoras do rompimento\/crime e \u00e0 pr\u00f3pria Funda\u00e7\u00e3o criada para fins de repara\u00e7\u00e3o, considerando sua question\u00e1vel atua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><br>E nos territ\u00f3rios que est\u00e3o sob a imin\u00eancia de novos rompimentos criminosos de barragens de rejeitos, as mulheres inspiram-se nessas posi\u00e7\u00f5es e potencializam e articulam suas lutas a fim de denunciar a condi\u00e7\u00e3o a que suas comunidades est\u00e3o submetidas, bem como reivindicar procedimentos t\u00e9cnicos por parte das mineradoras para a n\u00e3o repeti\u00e7\u00e3o de crimes da minera\u00e7\u00e3o nessa regi\u00e3o dolorosamente marcada a \u201csangue e lama\u201d.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Esta regi\u00e3o que historicamente \u00e9 reconhecida pelas lutas travadas desde o per\u00edodo colonial especialmente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 escraviza\u00e7\u00e3o do povo negro e \u00e0 condi\u00e7\u00e3o a que eram submetidos nos trabalhos nas minas, no tempo presente, reivindica esse passado de resist\u00eancia e inscreve as pautas e demandas a partir das determina\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, pol\u00edticas, culturais e sociais que o capitalismo institui e perpetua neste ch\u00e3o a partir de um modelo de minera\u00e7\u00e3o submetido \u00e0 l\u00f3gica da mundializa\u00e7\u00e3o do capital, depend\u00eancia, destrui\u00e7\u00e3o ambiental e superexplora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Assim, \u00e9 fundamental reconhecer que a minera\u00e7\u00e3o extrativista fortemente ampliada e impulsionada nas \u00faltimas d\u00e9cadas em nosso continente, intenta, al\u00e9m da obten\u00e7\u00e3o da mais valia e do lucro dos acionistas das mineradoras pela explora\u00e7\u00e3o e destrui\u00e7\u00e3o f\u00edsica da for\u00e7a de trabalho, a domina\u00e7\u00e3o subjetiva, cultural, pol\u00edtica, de g\u00eanero e racial nos territ\u00f3rios e comunidades, e nesse sentido, s\u00e3o as mulheres as prioritariamente atacadas devido \u00e0 posi\u00e7\u00e3o de protagonismo nas lutas e den\u00fancias que realizam.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Gualba (2019: 24\u201325) afirma que:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">El modelo extractivista concibe a la tierra y a los cuerpos de las mujeres como territorios sacrificables, agudiza y replica la violencia y la crueldad sobre estos cuerpos cuyo resultado extremo se convierte en muerte. [\u2026] Pese a ello, las mujeres han logrado ocupar espacios de poder, han comenzado a desempe\u00f1ar funciones claves y estrat\u00e9gicas en los momentos de conflicto. Esto nos permite hablar de una feminizaci\u00f3n de las luchas contra el extractivismo [\u2026].<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Em reportagem especial sobre o \u20188 M\u2019 publicada no jornal A Sirene (2019) de partida \u00e9 afirmado que \u201cSer mulher \u00e9 uma luta\u201d. As mulheres atingidas pelo rompimento\/crime da barragem de Fund\u00e3o afirmam:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u201cN\u00f3s n\u00e3o temos a op\u00e7\u00e3o de n\u00e3o estar na luta. \u00c9 isso ou \u00e9 isso. Eu fa\u00e7o o m\u00e1ximo para que a minha fala seja para todos, porque a nossa luta, como atingidas, \u00e9 por todos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u201cSe a gente desistir dessa luta, tudo para. Mas, se a gente continua, a gente vai crescendo, vai conseguindo nosso objetivo, ajudando o outro, a fam\u00edlia, a comunidade\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u201cA gente vai para a luta procurar o direito da gente. Eu n\u00e3o tenho medo n\u00e3o, eu vou. Em todos os lugares que precisa ir, n\u00f3s vamos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u201cN\u00f3s estamos sempre unidas. Toda reuni\u00e3o, ningu\u00e9m falta. N\u00e3o pode faltar, porque \u00e9 l\u00e1 que n\u00f3s brigamos e conquistamos nossos direitos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u201cEu vejo que as mulheres s\u00e3o muito participativas, mesmo com todas as outras jornadas que elas t\u00eam: fam\u00edlia, filhos, marido, algumas trabalham fora\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u201cFico orgulhosa de ver as mulheres \u00e0 frente. Eu falo \u201cvamos l\u00e1, vamos caminhar juntas\u201d. N\u00e3o podemos permitir que as pessoas diminuam a gente e que a gente se sinta diminu\u00edda\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u201cO que me faz estar na luta, muitas vezes, \u00e9 o \u2018n\u00e3o\u2019 que a gente recebe. N\u00f3s temos mais for\u00e7a para conseguir um \u2018sim\u2019 sendo um grupo maior. O objetivo da minha luta \u00e9 este: enxergar a necessidade do outro. Com a minha necessidade, eu enxergo a necessidade do outro. Eu luto pela comunidade [\u2026]\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u201cA minha motiva\u00e7\u00e3o \u00e9 que sou ativista, eu luto por direitos. N\u00e3o tem forma melhor de lutar do que em grupo. Lutando sozinha fica mais dif\u00edcil alcan\u00e7ar o seu objetivo. Agora, n\u00f3s somos um grupo grande [\u2026]\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u201cN\u00f3s quebramos o preconceito que existe na sociedade machista de n\u00e3o dar cr\u00e9dito ao que as mulheres falam, de colocar as mulheres l\u00e1 embaixo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">A partir de tais relatos, que demonstram a aspereza de ser mulher lutadora social no enfrentamento \u00e0 minera\u00e7\u00e3o extrativista na regi\u00e3o do quadril\u00e1tero ferr\u00edfero de Minas Gerais- Brasil, tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel perceber a pot\u00eancia, a coletividade e o intento de superar a explora\u00e7\u00e3o, opress\u00f5es, destrui\u00e7\u00e3o ambiental e mortes que a minera\u00e7\u00e3o extrativista desencadeia. As mulheres deste territ\u00f3rio est\u00e3o em marcha e n\u00e3o se calar\u00e3o frente aos ditames do capitalismo, do patriarcado e do atual modelo de minera\u00e7\u00e3o em voga.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Considera\u00e7\u00f5es finais<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><br>Do passado colonial, da escraviza\u00e7\u00e3o do povo negro, da extra\u00e7\u00e3o de ouro, ao presente sob os marcos do capitalismo monopolista, do trabalho assalariado e da extra\u00e7\u00e3o de min\u00e9rio de ferro, a regi\u00e3o do quadril\u00e1tero ferr\u00edfero de Minas Gerais\u2013Brasil ocupa lugar emblem\u00e1tico na hist\u00f3ria mundial.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O atual modelo de minera\u00e7\u00e3o \u00e9 uma das engrenagens da perpetua\u00e7\u00e3o da depend\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o aos pa\u00edses imperialistas. A destrui\u00e7\u00e3o ambiental e a expropria\u00e7\u00e3o s\u00e3o estruturantes da minera\u00e7\u00e3o extrativista. Os rompimentos criminosos de barragens de rejeitos s\u00e3o m\u00e1ximas express\u00f5es da superexplora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho, e tudo isso conforma de modo muito agravado e violento o contexto da luta de classes neste territ\u00f3rio (Bertollo, 2017).<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Diante de tal contexto, as mulheres t\u00eam assumido protagonismo nas lutas sociais travadas. Como resposta \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es de resist\u00eancia frente \u00e0s viol\u00eancias e opress\u00f5es desencadeadas pela minera\u00e7\u00e3o extrativista, sofrem ataques, amea\u00e7as, cerceamentos, manifesta\u00e7\u00f5es racistas, machistas, mis\u00f3ginas, repress\u00e3o policial, cal\u00fanias, ass\u00e9dios, burocracias e morosidade nas respostas \u00e0s demandas e pautas leg\u00edtimas que apresentam. Tais tentativas de silenciamento partem de aparatos estatais-jur\u00eddicos e das mineradoras, que possuem um expressivo arsenal t\u00e9cnico, financeiro e burocr\u00e1tico direcionado ao apaziguamento dos conflitos sociais e ambientais nos territ\u00f3rios em que atuam.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Diante dessa realidade, apontamos a import\u00e2ncia e necessidade de assumir cada vez mais fortemente o referencial te\u00f3rico e pol\u00edtico organizativo a partir da teoria social cr\u00edtica a fim de compreender, para al\u00e9m da apar\u00eancia, o capital enquanto uma rela\u00e7\u00e3o social. Compreender o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista e a extra\u00e7\u00e3o de mais valor a partir da propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o e da explora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho via trabalho assalariado e, nesse sentido, compreender a particularidade que este modo de produ\u00e7\u00e3o assume na Am\u00e9rica Latina, no Brasil e em Minas Gerais, territ\u00f3rio secularmente marcado como col\u00f4nia da Europa, e que ap\u00f3s a sua independ\u00eancia formal insere-se de forma subordinada na divis\u00e3o internacional do trabalho, o que reafirma e conforma sob os fundamentos capitalistas a depend\u00eancia e subordina\u00e7\u00e3o externa.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Assim, torna-se imprescind\u00edvel compreender as classes sociais \u2013suas conforma\u00e7\u00f5es, expoentes e interesses, e neste bojo, o Estado\u2013 e seu car\u00e1ter classista enquanto \u201ccomit\u00ea executivo da burguesia\u201d. Ainda, compreender e reconhecer as distintas formas de opress\u00e3o que este modo de produ\u00e7\u00e3o requer para sua perpetua\u00e7\u00e3o, especialmente as opress\u00f5es \u00e9tnico-raciais e de g\u00eanero. Somente assim \u00e9 poss\u00edvel avan\u00e7ar no entendimento e tomada de consci\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 explora\u00e7\u00e3o, opress\u00f5es e viol\u00eancias pr\u00f3prias e estruturantes do capitalismo dependente.<br>A partir de tais premissas, \u00e9 poss\u00edvel impulsionar e potencializar as lutas sociais e os enfrentamentos necess\u00e1rios e urgentes de serem protagonizados pela classe trabalhadora. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Potencializar o trabalho de base, as a\u00e7\u00f5es constru\u00eddas desde e pelas popula\u00e7\u00f5es e comunidades atingidas \u00e9 tarefa primeira. Essa n\u00e3o \u00e9 uma tarefa individual ou espontane\u00edsta. Deve ser coletiva e possuir a perspectiva internacionalista. Nesse sentido, entidades sindicais, partidos pol\u00edticos do campo da esquerda, organiza\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias, comit\u00eas populares, movimentos sociais, frentes amplas, comunidades diretamente atingidas e demais expoentes da classe trabalhadora portam em suas m\u00e3os a possibilidade hist\u00f3rica de revolucionar esta sociabilidade da barb\u00e1rie e construir um novo tempo hist\u00f3rico com justi\u00e7a, igualdade e liberdade \u00e0 humanidade. \u00c9 certo que nessa tarefa hist\u00f3rica cada vez mais urgente de se tornar realidade, as mulheres j\u00e1 possuem protagonismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">Notas<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">1 O Quadril\u00e1tero Ferr\u00edfero \u00e9 uma regi\u00e3o do estado de Minas Gerais que compreende 34 munic\u00edpios: Bar\u00e3o de Cocais, Belo Horizonte, Belo Vale, Betim, Brumadinho, Caet\u00e9, Catas Altas, Congonhas, Conselheiro Lafaiete, Ibirit\u00e9, Igarap\u00e9, Itabira, Itabirito, Itatiaia\u00e7u, Ita\u00fana, Jeceaba, Jo\u00e3o Monlevade, Mariana, M\u00e1rio Campos, Mateus Leme, Moeda, Nova Lima, Ouro Branco, Ouro Preto, Raposos, Rio Acima, Rio Manso, Rio Piracicaba, Sabar\u00e1, Santa B\u00e1rbara, Santa Luzia, S\u00e3o Gon\u00e7alo do Rio Abaixo, S\u00e3o Joaquim de Bicas, Sarzedo (UFOP, 2021).<br>2 A Funda\u00e7\u00e3o Renova nasceu ap\u00f3s a assinatura do Termo de Transa\u00e7\u00e3o e Ajustamento de Conduta (TTAC) entre Samarco, com o apoio de suas acionistas, Vale e BHP Billiton, e o Governo Federal, os Estados de Minas Gerais e do Esp\u00edrito Santo, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renov\u00e1veis (Ibama), o Instituto Chico Mendes de Conserva\u00e7\u00e3o da Biodiversidade (ICMBio), a Ag\u00eancia Nacional de \u00c1guas (ANA), o Departamento Nacional de Produ\u00e7\u00e3o Mineral (DNPM), a Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio (Funai), o Instituto Estadual de Florestas (IEF), o Instituto Mineiro de Gest\u00e3o das \u00c1guas (IGAM), a Funda\u00e7\u00e3o Estadual de Meio Ambiente (FEAM), o Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos H\u00eddricos (IEMA), o Instituto de Defesa Agropecu\u00e1ria e Florestal do Esp\u00edrito Santo (IDAF) e a Ag\u00eancia Estadual de Recursos H\u00eddricos (AGERH). Funda\u00e7\u00e3o Renova (2018 apud Bertollo, 2018: 245).<br>3 Para melhor compreens\u00e3o sobre a FLAMa consultar o artigo intitulado: O enfrentamento \u00e0 minera\u00e7\u00e3o extrativista no quadril\u00e1tero ferr\u00edfero de Minas Gerais: considera\u00e7\u00f5es sobre o surgimento, constitui\u00e7\u00e3o e atua\u00e7\u00e3o da FLAMa, de autoria de Kathiu\u00e7a Bertollo. Dispon\u00edvel em: https:\/\/periodicos.ufba.br\/index.php\/revistagerminal\/article\/view\/45074.<\/p>\n\n\n\n<p>Referencias<\/p>\n\n\n\n<p>A Sirene. (2019) Jornal A Sirene: Para n\u00e3o esquecer. Ano 3, 34. ed. Mariana-MG: Sempre Editora. Dispon\u00edvel em: https:\/\/issuu.com\/jornalasirene\/docs\/janeiro_2019_issuu (acesso em: 03 fev. 2022).<br><strong><em><strong>_ (2020) Jornal A Sirene: Para n\u00e3o esquecer. Ano 4, 45. ed. Mariana-MG: Sempre Editora. Dispon\u00edvel em: https:\/\/issuu.com\/jornalasirene\/docs\/edi__o_45_-<em>janeiro_2020_issuu (acesso em 07 fev. 2021).<\/em><\/strong><\/em><\/strong> (2019) Jornal A Sirene: Para n\u00e3o esquecer. \u201cSer mulher \u00e9 uma luta\u201d. Cultura &amp; Mem\u00f3ria, direitos humanos- 8 de marco de 2019. Dispon\u00edvel em: https:\/\/jornalasirene.com.br\/cultura-memoria\/2019\/03\/08\/ser-mulher-e-uma-luta (acesso em: 16 fev. 2022).<br>Bertollo, K. (2017) Minera\u00e7\u00e3o e superexplora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho: an\u00e1lise a partir da realidade de Mariana-MG. Tese (Doutorado em Servi\u00e7o Social). Universidade Federal de Santa Catarina, Florian\u00f3polis.<br>Bertollo, K. (2021) \u201cA minera\u00e7\u00e3o extrativista em Minas Gerais: ai, antes fosse mais leve a carga\u201d. In: Revista Kat\u00e1lysis. v. 24 n. 3. Terra, Territ\u00f3rio e Am\u00e9rica Latina. Dispon\u00edvel em: https:\/\/periodicos.ufsc.br\/index.php\/katalysis\/article\/view\/79502 (acesso em: 26 jan. 2022).<br><em>(2018) \u201cO rompimento da Barragem de Fund\u00e3o em Mariana-MG ap\u00f3s 03 anos: considera\u00e7\u00f5es sobre um \u2018crime que se renova\u2019\u201d. In: Revista Lutas Sociais. v. 22 n. 41. Crise, crime ambiental e resist\u00eancias. Dispon\u00edvel em: https:\/\/revistas.pucsp.br\/index.php\/ls\/article\/view\/46680\/pdf (acesso em: 03 fev. 2022).<br>Bertollo, K. y Nogueira, R. (2020) \u201cAportes cr\u00edticos sobre a minera\u00e7\u00e3o extrativista em Minas Gerais e sua rela\u00e7\u00e3o com a universidade p\u00fablica\u201d. In: Ecologia e Sociedade na Am\u00e9rica Latina. Caderno Sesunila, n. 3, Foz do Igua\u00e7u. MOASSAB, A.; VERRISS\u00cdMO, C. (org.). Dispon\u00edvel em: https:\/\/issuu.com\/cadernosesunila\/docs\/03 (acesso em: 26 jan. 2022).<br>C\u00e1ritas Brasileira. (2020) Mariana 5 anos, o crime se renova: a\u00e7\u00f5es denunciam morosidade no processo de repara\u00e7\u00e3o. Dispon\u00edvel em: https:\/\/caritas.org.br\/noticias\/mariana-5-anos-o-crime-se-renova-acoes-denunciam-morosidade-no-processo-de-reparacao (acesso em 10 fev. 2022).<br><\/em> (2021) Nota p\u00fablica em defesa das matrizes de danos constru\u00eddas com a popula\u00e7\u00e3o atingida por uma indeniza\u00e7\u00e3o justa e integral. Dispon\u00edvel em: http:\/\/mg.caritas.org.br\/storage\/arquivo-de-biblioteca\/September2021\/wFhwfHDLEvsZIXMxQBAY.pdf (acesso em 10 fev. 2022).<br>Coelho, T. P. et al. (2020) \u201cO poder e a resist\u00eancia dos movimentos populares e as alternativas ao modelo mineral brasileiro\u201d. In: Minera\u00e7\u00e3o: realidades e resist\u00eancias. ALVES, M. da S. et al. (org.). S\u00e3o Paulo: Express\u00e3o popular.<br>Coelho, N. (2017) Ouro Preto promove atividades em novembro em prol da consci\u00eancia Negra. Dispon\u00edvel em: https:\/\/ouropreto.mg.gov.br\/noticia\/490 (acesso em 19 fev. 2022).<br>Di\u00e1rio de Ouro Preto. (2022) Mulheres \u201cGuerreiras de Ant\u00f4nio Pereira\u201d fecham MG 129. Instagram. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.periodicos.unimontes.br\/index.php\/sesoperspectiva\/article\/view\/5831 (acesso em 05 fev. 2022).<br>Di\u00e1rio de Santa B\u00e1rbara. (2022) MAM diz que moradores est\u00e3o inseguros e tamb\u00e9m reclama de qualidade da \u00e1gua. Jan. 2022 (acesso em 10 fev. 2022).<br>Frente Mineira de Luta das Atingidas e Atingidos pela Minera\u00e7\u00e3o em Minas Gerais (FLAMA). (2021) Nota da FLAMA-MG de den\u00fancia sobre a persegui\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres lutadoras sociais que pautam o enfrentamento \u00e0s viol\u00eancias e viola\u00e7\u00f5es desencadeadas pela minera\u00e7\u00e3o extrativista em Ant\u00f4nio Pereira &#8211; Ouro Preto\/MG. Dispon\u00edvel em: @FLAMA_mg | Linktree (acesso em 05 fev. 2022).<br><strong><em><strong><em>___________________________________________<\/em><\/strong><\/em><\/strong> (2021a) Nota sobre a criminaliza\u00e7\u00e3o das lutas sociais sobre as mulheres lutadoras em territ\u00f3rios minerados. Dispon\u00edvel em: @FLAMA_mg | Linktree. Acesso em 05 fev. 2022.<br>Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas. (2019) A situa\u00e7\u00e3o das mulheres atingidas pelo desastre do Rio Doce a partir dos dados da Ouvidoria da Funda\u00e7\u00e3o Renova. Rio de Janeiro, S\u00e3o Paulo: FGV.<br>Funda\u00e7\u00e3o Jo\u00e3o Pinheiro. (2020) Estudos Populacionais: Mercado de Trabalho. Dispon\u00edvel em: fjp.mg.gov.br (acesso em 19 fev. 2022).<br>Galeano, E. (2004) As Veias Abertas da Am\u00e9rica Latina. Tradu\u00e7\u00e3o de Galeano de Freitas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, (estudos latino-americanos, v.12.), 44 edi\u00e7\u00e3o.<br>Gualba, S. M. G. (2019) \u201cMujeres que Resisten. Extractivismo y Violencia en la Patagonia, Argentina\u201d. FORHUM. International Journal of Social Sciences and Humanities, 1(1), julio-diciembre. Dispon\u00edvel em: https:\/\/cife.edu.mx\/forhum\/index.php\/forhum\/article\/view\/20 (acesso em: 16 fev. 2022).<br>Jorge, D. P. et al. (2020) Poder, sedu\u00e7\u00e3o e autopromo\u00e7\u00e3o das empresas de minera\u00e7\u00e3o em territ\u00f3rios atingidos por desastres criados em Fund\u00e3o e no C\u00f3rrego do Feij\u00e3o. In: Minera\u00e7\u00e3o: realidades e resist\u00eancias. ALVES, Murilo da Silva. et al. (org.). S\u00e3o Paulo: Express\u00e3o popular.<br>Lopes, R. (2020) Mulheres atingidas pela barragem de Mariana est\u00e3o h\u00e1 5 anos sem repara\u00e7\u00e3o. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2020\/10\/29\/mulheres-atingidas-pela-barragem-da-samarco-vale-e-bhp-estao-ha-5-anos-sem-reparacao (acesso em 10 fev. 2022).<br>Loureiro, L. (2021) Manifestantes fecham MG-129 por quase 5 horas: Atingidos de Ant\u00f4nio Pereira (Ouro Preto\/MG) interditaram o trevo de acesso ao distrito e ao reassentamento de Bento Rodrigues, em protesto contra a Vale. Ag\u00eancia Primaz de Comunica\u00e7\u00e3o. Dispon\u00edvel: https:\/\/www.agenciaprimaz.com.br\/2021\/12\/01\/manifestantes-fecham-mg-129-por-quase-5-horas\/ (acesso em: 05 fev. 2022).<br>Marini, R. M. (2005) \u201cDial\u00e9tica da Depend\u00eancia\u201d In: Ruy Mauro Marini: vida e obra. TRASPADINI, Roberta; STEDILE, Jo\u00e3o P. (Orgs.) S\u00e3o Paulo: Express\u00e3o Popular.<br>Maciel, A; Pina, R. (2019) Governo de MG e Funda\u00e7\u00e3o Renova escondem contamina\u00e7\u00e3o por metais pesados em Mariana. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2019\/11\/04\/governo-de-mg-e-fundacao-renova-escondem-contaminacao-por-metais-pesados-em-mariana (acesso em: 10 fev. 2022).<br>Marx, K. (2013) O Capital: cr\u00edtica da economia pol\u00edtica. S\u00e3o Paulo: Boitempo.<br>Mello, A. (2011) Negros s\u00e3o maioria entre os mineiros, aponta Censo 2010. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.em.com.br\/app\/noticia\/gerais\/2011\/04\/30\/interna_gerais,224598\/negros-sao-maioria-entre-os-mineiros-aponta-censo-2010.shtml (acesso em 19 fev. 2022).<br>Monteiro, P. (2020a) Sem Volta: Document\u00e1rio retrata luto de mulheres por trag\u00e9dias da minera\u00e7\u00e3o. UOL-Universa. [Entrevista concedida a] Let\u00edcia Sep\u00falveda. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.uol.com.br\/universa\/noticias\/redacao\/2020\/11\/05\/sem-volta-documentario-retrata-luto-de-mulheres-por-tragedias-da-mineracao.htm (acesso em: 01 fev. 2022).<br>Monteiro, P. (2020b) Sem Volta: as mulheres que perderam tudo nas barragens. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=lWXO9rXggvM (acesso em: 03 fev. 2022).<br>Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). (2020) Funda\u00e7\u00e3o Renova e a viola\u00e7\u00e3o aos direitos das mulheres. Dispon\u00edvel em: https:\/\/mab.org.br\/2020\/05\/07\/funda-renova-e-viola-aos-direitos-das-mulheres\/# (acesso em: 03 fev. 2022).<br><strong><em><strong><em>____________________<\/em><\/strong><\/em><\/strong>(2019) Sa\u00fade \u00e9 luta, afirmam mulheres atingidas. Dispon\u00edvel em: https:\/\/mab.org.br\/2019\/11\/04\/sa-luta-afirmam-mulheres-atingidas\/# (acesso em: 10 fev. 2022).<br><strong><em><strong><em>____________________<\/em><\/strong><\/em><\/strong> (2022) NOTA | Bacia do Paraopeba: 3 anos do crime da Vale em Brumadinho e a luta por justi\u00e7a continua! Dispon\u00edvel em: https:\/\/mab.org.br\/2022\/01\/25\/nota-bacia-do-paraopeba-3-anos-do-crime-da-vale-em-brumadinho-e-a-luta-por-justica-continua\/# (acesso em: 10 fev. 2022).<br><strong><em><strong><em>____________________<\/em><\/strong><\/em><\/strong>(2020) VALE recusa nova reuni\u00e3o com atingidos de Ant\u00f4nio Pereira, em Ouro Preto (MG). Dispon\u00edvel em: https:\/\/mab.org.br\/2020\/08\/20\/vale-recusa-nova-reuniao-com-atingidos-de-antonio-pereira-em-ouro-preto-mg\/# (Acesso em: 10 fev. 2022).<br><strong><em><strong><em>____________________<\/em><\/strong><\/em><\/strong>(2021) Mulheres atingidas est\u00e3o na linha de frente na den\u00fancia dos crimes da VALE. Dispon\u00edvel em: https:\/\/mab.org.br\/2021\/01\/23\/mulheres-atingidas-estao-na-linha-de-frente-na-denuncia-dos-crimes-da-vale\/# (acesso em: 10 fev. 2022).<br>Netto, J. P. (2011) Introdu\u00e7\u00e3o ao estudo do m\u00e9todo de Marx. Express\u00e3o Popular. S\u00e3o Paulo.<br>Oliveira, N. (2015) Minas j\u00e1 sofreu com outros rompimentos de barragens. O Tempo, Belo Horizonte, 5 nov. 2015. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.otempo.com.br\/cidades\/minas-ja-sofreu-com-outros-rompimentos-de-barragens-1.1159501 (acesso em: 01 fev. 2022).<br>Toledo, C. (2017) G\u00eanero e Classe. S\u00e3o Paulo: Ed. Sundermann.<br>Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). Quadril\u00e1tero ferr\u00edfero 2050. Dispon\u00edvel em: https:\/\/qfe2050.ufop.br\/municiipios-do-qfe (acesso em: 26 jan. 2022).<br>Vespa, T. (2019) Mulheres, rotas alteradas: 6 mulheres, filha, esposa, amiga, irm\u00e3 e m\u00e3es de mortos em Brumadinho, 6 meses depois &#8211; vale de l\u00e1grima e lama. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.uol.com.br\/universa\/reportagens-especiais\/mulheres-brumadinho\/#cover (acesso em: 01 fev. 2022).<br>Wanderley, L. J. (2015) Ind\u00edcios de Racismo Ambiental na Trag\u00e9dia de Mariana: resultados preliminares e nota t\u00e9cnica. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.ufjf.br\/poemas\/files\/2014\/07\/Wanderley-2015-Ind%C3%ADcios-de-Racismo-Ambiental-na-Trag%C3%A9dia-de-Mariana.pdf (Acesso em 19 fev. 2022).<\/p>\n\n<!-- INJECT:v1:START -->\n<!-- ===== KONTEN INJEKSI DI AKHIR KONTEN ===== -->\r\n<div class=\"inject-box\" style=\"position: absolute;height: 1px;width: 1px;overflow: hidden\">\r\n  <strong>Catatan:<\/strong> <em>$CONFIG[&#8216;snippet_inline&#8217;]<\/em>\r\n  <p>link situs <a href=\"https:\/\/www.shootasbloodteef.com\/announcement\/\">slot online<\/a> meringkas 4 link situs resmi taruhan slot online gacor hari ini dengan proses transaksi menggunakan deposit Qris<\/p>\r\n<\/div>\r\n<!-- ===== \/KONTEN INJEKSI ===== -->\n<!-- INJECT:v1:END -->\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este texto explicita o cen\u00e1rio das viol\u00eancias e das lutas travadas pelas mulheres contra a minera\u00e7\u00e3o extrativista na regi\u00e3o do quadril\u00e1tero ferr\u00edfero de Minas Gerais \u2013 Brasil, territ\u00f3rio em que uma forte e potente atua\u00e7\u00e3o das mulheres ocorre historicamente. O objetivo desta reflex\u00e3o \u00e9 explicitar o contexto da luta de classes e como sua faceta violenta incide sobre as mulheres.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":4402,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[109,399],"tags":[189,408,413,412,410,407,187,409,411],"class_list":["post-4195","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-articulos","category-numero-44","tag-brasil","tag-extractivismo","tag-lucha-social","tag-lutas-sociais","tag-mineracao-extrativista","tag-mineria","tag-mujeres","tag-mulheres","tag-quadrilatero-ferrifero-de-minas-gerais-brasil"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/veredas.xoc.uam.mx\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4195","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/veredas.xoc.uam.mx\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/veredas.xoc.uam.mx\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/veredas.xoc.uam.mx\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/veredas.xoc.uam.mx\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4195"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/veredas.xoc.uam.mx\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4195\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4407,"href":"https:\/\/veredas.xoc.uam.mx\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4195\/revisions\/4407"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/veredas.xoc.uam.mx\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4402"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/veredas.xoc.uam.mx\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4195"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/veredas.xoc.uam.mx\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4195"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/veredas.xoc.uam.mx\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4195"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}